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Já me fiz em arte e em artista.

Mas o que conta,

é o ponto de vista!

(Robinson Murilo Badin)

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O heroi que amava

Essa é uma daquelas histórias que se alojam na ousadia de vir a existir, que se fazem sinuosas em digerir, com ingredientes aversivos para serem palatáveis. 

Havia um heroi fraco e distinto, sem poderes aparentes, aqueles que o observavam não viam poder algum, muito pelo contrário, viam fraqueza e ausência de beleza. A beleza parecia ter fugido dele, parecia um conceito distante. E esse heroi amava! E nisso residia sua beleza. Mas quem ama e tal amor não é visto, sua beleza também não o é. E o amor vem de dentro e não somos acostumados a ver por dentro, somos acostumados a ver por fora.

E esse heroi tinha uma amada, que como todos nós, não o notava… deixava-o passar desapercebido, tinha-o como trivial, trivial demais para ser notado. Foi então que ele teve uma ideia… a ideia sobre todas as ideias…

Uma ideia tão ousada que causava arrepios, mais ainda, se as ideias tivessem autonomia, nem ela mesma se apresentaria a qualquer ser vivente. Depois de refletir e, ruminar através da eternidades de algumas semanas, ele enfim decidiu embarcar nesta jornada épica.

Desprovido de argumentos convincentes, mas com o maior argumento que se pode convencer, saiu ele de mãos vazias e com o coração cheio de amor. Foi ao encontro do mais terrível ser que se podia imaginar, talvez o único capaz para os requisitos da missão, daqueles que nos causam aversão, alguém que era desprovido de qualquer boa causa para lutar. Mas agora, endossado pela audácia do amor, seria recrutado para a maior aventura de sua existência.   

Destemidamente nosso heroi adentrou as habitações do “terrível ser”, o que causou surpresa, naquele que sempre foi causador de temor. Paralisado esperava a figura distinta se aproximar e pensando consigo mesmo, planejava o bote certeiro, que seria fulminante. Finalmente interromperam-se  os seus passos e de uma distância nenhum um pouco segura exclamou:

  • Saudações!    
  • não aprecio visitas! respondeu o “terrível ser”.

Após uma longa explanação, nosso heroi conseguiu convencer aquele que parecia não ser facilmente convencido. Obstinados partiram ambos rumo ao maior plano já arquitetado. Neste momento até os anjos se inclinaram para assistir tal jornada.

Depois de andarem uma distância considerável, juntos, inesperadamente, numa esquina qualquer, nosso heroi toma um rumo diferente de seu mais novo “parceiro”. Mas tudo acontece com naturalidade como se já estivesse planejado, e o era de fato. Nosso heroi vai para casa, realiza seus rituais diários e apronta-se para dormir. Enquanto isso, o seu “parceiro” segue as coordenadas entregues durante a definição do plano, dadas há poucas horas.

Numa rua específica, como previsto, já em horas elevadas, os olhos do “terrível ser” avista a amada de nosso heroi. Andando tranqüilamente como todos os dias, seguia a bela donzela rumo a sua casa, onde teria seu repouso certo. Mas tudo naquela noite seria diferente…

Desprotegida e frágil, a donzela era alvo fácil para a emboscada, minuciosamente ensaiada… Foi então que: como fantasma, apareceu, sem ser percebido, por detrás dela e com uma substancia especifica a colocou em sono profundo rapidamente, antes mesmo dela reagir sequer com um singelo grito de socorro.

Rapidamente, com artifícios inesperados, o “terrível ser” transporta-se junto a donzela, para um beco escuro, em que havia um galpão abandonado. Naquele ambiente frio e úmido ambos passaram a noite… A noite mais longa já adornada pelas estrelas… Até os cintilantes celestes estavam apreensivos naquela noite, brilhavam como que quem não brilha. Obviamente nosso herói, depois de ter se preparado para dormir, não o fez. A ansiedade tomou conta de seu ser, de modo a expulsar o sono decididamente. 

Impulsionado pela saudade daquilo que ainda não tinha vivido, pelo desejo quase inatingível de ter sua amada em seus braços, correu em direção daquele galpão frio e úmido. Entre luz e sombras, seu coração pulsava por tê-la à uma distancia de conquista, talvez fosse um desejo sombrio apenas, talvez fosse amor em demasia, quem poderia julgar o herói entregue a tão grande audácia? Em seu defeito encontramos o mérito, assim como em diamantes onde a natureza de seu defeito, de sua impureza ao ser transpassada pela luz, produz espectros de raios luminosos fascinantes aos olhos. Em cada passo que dava, nosso herói anunciava às trevas, à tudo e a todos, que não seria subestimado pela brevidade de sua vida, muito menos pelo anonimato de seu amor.

Ao chegar até ao galpão, instantaneamente deu-se de cara com sua amada, amordaçada e amarrada como quem fosse criminosamente condenável. Durante um longo e gravitacional segundo encheu-se de compaixão, compaixão essa que correu por cada centímetro de seu corpo e então ele anuncia:

  • estou aqui para salvá-la!      

Com uma esperança quase indescritível, se veste a bela donzela, agita-se, reforçando seu pedido de socorro mesmo amordaçada. O que se podia ouvir eram apenas silabas não inteligíveis abafadas pela mordaça. Neste exato momento ideias de possíveis planos para salvá-la , sem precisar sequestrá-la dançavam em sua cabeça…num ritmo de desespero, como que se houvesse chamas em sua mente. Foi então, como que num filme, sua consciência expeliu um número absurdo de informações que ressoaram bem no fundo peito…Disso nosso heroi retirou a conclusão mais importante , naquela altura, da execução do plano. Aliviado, depois de uma análise feita na velocidade da luz, chega a inteira informação de que a única maneira de tê-la nos braços seria sequestrando-a e apresentando-se como o único e providencial heroi exclusivo para o crime e para ela, a bela donzela.   

Muitos podem tê-lo como louco ou algo do tipo, mas uma coisa é certa, muitas vezes o amor toma caminhos não triviais e é preciso ser corajoso o suficiente para tomar como direção as coordenadas do amor. E foi isso que nosso destemido heroi fez, mais audácia do que ir visitar o “terrível ser”, foi justamente se entregar ao amor. Amar requer ousadia, compreende risco. Dizem que amor não pode ser imposto ou cobrado, nosso heroi sabia disso, mais ainda, não queria que fosse dessa maneira, mas queria que o despertar desse amor fosse triunfal, e nada mais tribunal do que ser herói de alguém. Sabia inclusive do perigo de ser apenas herói da bela donzela e não ser seu amor… mas aquele que ama aposta tudo que tem no amor, caso contrario não seria amor, seria comodidade e amor é tudo, menos comodidade.

O plano seguia impecável em sua execução, quando de repente algo inesperado aconteceu. O “terrível ser” faz jus a sua nomenclatura e não facilita o regaste da bela donzela e começa então uma batalha violenta entre ele e o heroi. Dentro da cabeça de nosso herói perturbadoras e enraivecidas ideias passavam, consumindo-o. Dominado pela sua natureza vil o “terrível ser”, repentinamente, decidiu de fato sequestrá-la, fugir do plano e, tirar sua vida. Por puro prazer animalesco. Nessa contrariada situação torna-se herói aquele que buscava tal status quo de identidade.

Ambos se entranharam numa baralha medonha, batalha que não havia se visto entre homens. Tardando sua morte, o herói golpeava seu oponente com movimentos marciais tão forte quanto seu amor pela bela donzela. Entre a atenção da luta e do resgate, em fim a amada é libertada das amarras e no instante seguinte nosso herói é golpeado fatalmente. Neste instante o “terrivel ser” cai em si e observa o que havia feito e paralisado contemplava a cena, digna de ser cantada pelos anjos… finalmente nosso herói declara seu amor pela bela donzela e ela sem entender nada o abraça forte.     

Com ele agonizando em seus braços, com seu sangue escorrendo pelo chão, como as correm para mar, foi que olhando nos olhos ela disse um sincero : Eu te amo!

[Robinson M. Badin]

O heroi que amava

Os anjos constroem pontes

Os demônios fazem muros

Suas asas se confundem

Em meios à nossos braços

Suas vozes se juntam

Aos nossos gritos

Seus planos são laços

Mas os categoria dos sapiens

Se perdem aos passos

Que ignoram a arquitetura

De outros espaços…

( Robinson Murilo Badin)