Selva de metal

O que é que o mundo está fazendo aqui?

Ou o que é que isto está fazendo aqui no mundo?

A luz de todo dia não é a luz do sol.

Sintética e traumática, clareia, mas não ilumina.

Anda muito e não vai longe, fala muito e não diz nada.

Valores, virtudes e vegetação não existem, isso é do tempo vitoriano.

Mas não tem problema, hoje temos dinheiro, leis e latifúndios.

Só quem sabe é sábio, quem trabalha é burro.

Quem produz é perdedor, quem ganha com isso é produtor.

Mas deixe pra lá esse pessimismo, vou sair pra ver o sol.

(Rinaldo Filho)

Selva de metal

vale da sombra da morte

anunciamos o vale da sombra da morte

faz 64 semanas que ando por lá,

sua grandeza não está no tamanho,

mas no tempo, que parece não passar.

*

o salmista se esqueceu de mencionar

que o medo é quase doce, cheira a sorte,

diante da dor que me faz latejar.

a sequidão é implacável castiga com rigidez.

*

como a areia escorre entre os dedos

a esperança se ausenta com fluidez,

se disfarça, se traveste de insensatez.

*

ah! amor que vem como chama visceral

peço que tornes a areia deste deserto

a matéria prima de um belo vitral!

*

(Robinson Murilo Badin)

vale da sombra da morte

Perdício

Com o tempo quem é sábio aprende a valorizar.

E também aprende a desvalorizar.

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Aproveita cada pedaço bom de uma fruta,

cada segundo com as pessoas,

cada dia de sua vida.

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Tem gente que sabe não desperdiçar,

mas não sabe valorizar.

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Gera-se riqueza através da redução de custos,

capital que gera dinheiro, mas não valor.

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Os mais pobres valorizam melhor,

podre mesmo, suas frutas comerão,

e seus dias, como o último, viverão.

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(Rinaldo Filho)

Perdício

inferno

e falaram que o inferno não existe,

olhei para o lado com olhos marejados.

vi os muros que o preconceito ergueu.

o amor que foi vendido e confundido.

a menina inocente que é violentada.

o menino sonhador que morre de fome.

em seus sonhos não aparecia castelos,

era simples, um prato com comida dentro.

vi os homens vaidosos, fartos, sem fome,

que esvaziam o prato daquela menino.

me agrediu a cena do amor num papel.

papel carimbado com números,

números que contam a falta de contar.

contar a dor do outro, contar a fome,

contar com o outro, contar os contos.

vi coisas que não tenho forças pra dizer

vi coisas que queria deixar de ver

vi coisas que não é justo se ver

vi coisas que se vê todos os dias

esperava que fossem apenas fantasias

e nisso tudo vi o que não queria ver.

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depois de tanto ver

retornei a frase inicial

e me fiz em silêncio…

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(Robinson Murilo Badin)

inferno

a morte de quem ainda respira

vi o fim do tempo,

dancei com a morte,

falei com o diabo,

gritei atrás do anjo,

mas fui silenciado.

***

o sol se esfriou,

as rosas desbotaram,

o inferno me abraçou,

palavras me cortaram.

***

somei todas as dores,

quando subtraiu-se

aquela parte de mim,

por ela sou assim.

***

hoje meu coração

bate em outro peito.

o diagnóstico é certo:

– estou morto!

– satisfeito?

***

(Robinson Murilo Badin)

a morte de quem ainda respira