Ser

Sou o que sinto e o que não sinto
Sou o que sou e a ausência de mim
Exatamente o que não é exato
Sou a média do que fui e do que serei
A busca por saber quem sou
Sabendo que nunca saberei ao certo
Sou o que quero ser e também o que não quero
Sou exclamação e interrogação
Juntas na mesma sentença
Sou um impostor autêntico
Sou verso sem rima
Rima sem verso
Métrica sem medida
Sou o que não devo ser
Pois o que devo, ainda serei
Sou dívida que não foi paga
Sou pagamento para tal dívida
Não sou todas as outras coisas
Sou somente eu e eu somente
Mentira e verdade, pergunta e resposta
Sou livremente condenado
E a liberdade que me condena
Sou um sal doce que amarga o paladar
Sou uma ideia que respira
E o ar para os pulmões dessa ideia
Não me basto, completamente gasto
Sou o que se vê e tudo que não é visto
Sou cólera e amor, risos e dor
Sou persistência pura
A insistência de existir
A teimosia de ser
A sanidade da loucura
A audácia de ter um nome
A exclusividade de não ser você

(Robinson Murilo Badin)

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Ser

Sem palavras

Palavra é a ideia que tomou forma
É o fôlego que faltou ar
As entranhas pelo lado de fora
É rio que toma seu curso
É o curso do rio sem rumo
São as águas de todos os mares
É o deserto e sua sequidão
Semente que se tornou flor
É a flor e os seus espinhos
Palavra é você e sou eu
Palavra é a falta de nós
Palavra é a esperança
O ato de esperar sem fiança
É a chegada e a partida
A ausência de dizer
Sendo dita e ouvida
Mesmo que seja em silêncio
É o abraço, o beijo, desejo
Antes mesmo de ser o que vejo
Palavra é o antes, o ensaio e a peça
É a anti-materia e a sua matéria
Palavra é o depois, conclusão
Palavra não tem tempo
É o próprio tempo e seus passos
O vento soprou e soprará,
Mas o que foi dito será
e já foi, não se conjugará
Palavra não é palavra
Ela é todas as outras coisas

(Robinson Murilo Badin)

Sem palavras

estou morto

estou morto,

mas a morte esqueceu de me levar.

fez do meu sofrer constante pesar.

antes tivera me levado,

como que alado,

voar para longe da dor.

sangue em mim ja não há

pois verteste por ti.

estou morto,

foi-se o fôlego e se

voltares para mim,

voltarei a viver ,

pararei de sofrer.

serei quem quero ser,

voltarei a enxergar

a beleza de viver.

mudarei meu andar

que andas a capengar.

estou morto

e rasgado por dentro.

estou morto,

mas ainda sinto.

sinto sem sentir,

como sem comer,

bebo sem beber.

estou morto,

mas ainda vivo.

vivo como quem morreu.

sou nada alem de sofrer,

por isso me dou a escrever.

[Robinson M. Badin]

estou morto

porque sim

sinto saudade porque pertenço a ti,

pertenço a ti porque sinto saudade.

te amo porque não sei explicar,

não sei explicar porque te amo!

adoro teu toque, pois me faz tocar…

me faz tocar pois é o teu toque.

tenho ouvidos, para ouvir tua voz…

ouço tua voz porque me faço ouvidos.

escrevo porque és palavra

e palavra se guarda no peito.

 

[ROBINSON M BADIN]

porque sim

O homem falido

Havia um homem falido, seus passos eram incertos assim como o passar do tempo. Suas obras pareciam não florescer, nem seus trabalhos darem frutos. Quando respirava ate o ar parecia lhe fazer desfeita. O obvio ao seu lado era tão indecifrável quanto o caos.

Seus sonhos nasciam em vão, seus dias se faziam em noite, suas noites nem existiam. Andava, andava, mas não saia do lugar. Construiu, embora habitação não tinha, de natureza alguma. Seu corpo parecia não ter lugar, ele não parecia ter lugar em seu corpo, era como perfume no frasco errado, era como frasco sem perfume. 

Sua sabedoria cheirava a ignorância, toda tentativa de ser ouvido se fazia em silêncio. A derrota tinha a mesma cor que a vitória diante de seus olhos. Seus movimentos pareciam rastejar pelo ar, sua vaidade consistia em apenas existir, sua existência era persistência pura. E viu que sua morte não faria diferença alguma.

A paixão era sem cortejo, o desejo sem ensejo, a rima sem obra-prima. Queria as estrelas, mas estava preso ao chão. Queria os mares, mas tudo era deserto. Queria flores, mas a terra era seca. queria vida, mas tudo era inóspito. Queria ser, mas não sabia quem era. Queria querer, mas te tanto querer ja não queria mais nada.

Banhava-se e com perfume adornava-se, mas ainda cheirava mal. Nutria-se bem, mas ainda sentia fome. Enxergava perfeitamente, mas tudo era embaçado. Seus dons eram desserviços a qualquer oficio. Sua mente era cheia de ruídos.    

Seu presente parecia passado e seu futuro já tinha passado. Seus sorriso era sempre amarelo como o sol, mas brilhava como luz que apaga. Seu coração batia, mas parecia não pulsar. Sua fala era doce, mas ao ouvir parecia amargar.

Quem o conhecia, queria desconhecer. Quem não queria, desejava dele se esconder. Entrava e saia e nada parecia acontecer. Cada investida já vinha sem conclusão, cada escolha era imposição vestida de opção.

Todos o tinham como derrotado, mas nem a derrota lhe quis fazer companhia. A solidão era estado constante, hábitos e rituais se faziam presente, para supostamente preencher o vazio, vazio este que preenchia todo o seu ser.

Em meio a todo o caos havia algo estranho neste homem, algo que não era apenas de fora, era também, na verdade. Estava além dele e nele ao mesmo tempo. Algo que fugia a lógica, e quando fala lógica, me refiro ao visível, ao tangível… Em meio a sua notável falência, havia algo em seus olhos que trazia um universo de informações.    

Alem de toda sua derrota, ele sentia cada detalhe ao seu redor. Cada cheiro, movimento, comportamento, cada geometria, cada padrão, som, musica e tom. Perceber tudo isso e ainda ser derrotado era ainda mais frustrante. Ele ja não era um vencedor, era resistência in natura.    

Mas no final das contas sua falência era sua maior virtude, pois ele tinha esperança…

 

[Robinson Murilo Badin]

O homem falido