vale da sombra da morte

anunciamos o vale da sombra da morte

faz 64 semanas que ando por lá,

sua grandeza não está no tamanho,

mas no tempo, que parece não passar.

*

o salmista se esqueceu de mencionar

que o medo é quase doce, cheira a sorte,

diante da dor que me faz latejar.

a sequidão é implacável castiga com rigidez.

*

como a areia escorre entre os dedos

a esperança se ausenta com fluidez,

se disfarça, se traveste de insensatez.

*

ah! amor que vem como chama visceral

peço que tornes a areia deste deserto

a matéria prima de um belo vitral!

*

(Robinson Murilo Badin)

vale da sombra da morte

Perdício

Com o tempo quem é sábio aprende a valorizar.

E também aprende a desvalorizar.

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Aproveita cada pedaço bom de uma fruta,

cada segundo com as pessoas,

cada dia de sua vida.

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Tem gente que sabe não desperdiçar,

mas não sabe valorizar.

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Gera-se riqueza através da redução de custos,

capital que gera dinheiro, mas não valor.

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Os mais pobres valorizam melhor,

podre mesmo, suas frutas comerão,

e seus dias, como o último, viverão.

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(Rinaldo Filho)

Perdício

inferno

e falaram que o inferno não existe,

olhei para o lado com olhos marejados.

vi os muros que o preconceito ergueu.

o amor que foi vendido e confundido.

a menina inocente que é violentada.

o menino sonhador que morre de fome.

em seus sonhos não aparecia castelos,

era simples, um prato com comida dentro.

vi os homens vaidosos, fartos, sem fome,

que esvaziam o prato daquela menino.

me agrediu a cena do amor num papel.

papel carimbado com números,

números que contam a falta de contar.

contar a dor do outro, contar a fome,

contar com o outro, contar os contos.

vi coisas que não tenho forças pra dizer

vi coisas que queria deixar de ver

vi coisas que não é justo se ver

vi coisas que se vê todos os dias

esperava que fossem apenas fantasias

e nisso tudo vi o que não queria ver.

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depois de tanto ver

retornei a frase inicial

e me fiz em silêncio…

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(Robinson Murilo Badin)

inferno

a morte de quem ainda respira

vi o fim do tempo,

dancei com a morte,

falei com o diabo,

gritei atrás do anjo,

mas fui silenciado.

***

o sol se esfriou,

as rosas desbotaram,

o inferno me abraçou,

palavras me cortaram.

***

somei todas as dores,

quando subtraiu-se

aquela parte de mim,

por ela sou assim.

***

hoje meu coração

bate em outro peito.

o diagnóstico é certo:

– estou morto!

– satisfeito?

***

(Robinson Murilo Badin)

a morte de quem ainda respira

Tá aí, é isso…

e ela tanto se libertou que se apegou ainda mais

entendeu que o amor está acima da dor,

que a presença acima da privacidade,

que pode perder qualquer coisa, inclusive a si mesma,

a si mesma para não perder-lo, o amor!

compreendeu que a felicidade

é um grão de areia diante do amor.

aprendeu que a maneira mais justa de se amar

é também a mais dolorosa, a mais paradoxal,

tanto que amor e loucura se superpõem.

viu que bom senso é não ter “bom senso”.

concluiu que príncipe encantado

é justamente aquele cara complicado

tão complicado que parece louco, e pensando bem,

é louco mesmo! louco por ela, louco de amor.

e a verdade que a libertou, gravou na alma.

que amor não se explica, não te faz feliz em tudo,

não é confortável, não é estabilidade financeira,

não é ausência de perigo (aliás amar é bem perigoso)

(acho que é justamente por isso que o coração

é o músculo que mais se exercita, pra aguentar o tranco!).

amor não é ter interesses em comum com o outrem

isso é empreendedorismo, capitalismo, terrorismo.

amor sobrevive diante de interesses e desinteresses. 

amor é a única grandeza capaz de juntar

aquelas partes que são diametralmente opostas. 

entendeu ainda mais, amor não é pra te completar

não é pra somar, está além da soma, das equações

amor é ser, ser duas partes que se fizeram em um…

ser o que é inevitável ser, e aí está, justamente isso!

-Eureka!

é a união da parte inevitável de você, que nasceu separada.

(Robinson Murilo Badin)

Tá aí, é isso…