Esfriou em chamas

No meu sorriso, calmaria.

onde se escondem as lágrimas

que nenhum deserto secaria.

Tentei dimensionar, tentei contar, tentei entender

por muitas vias me aventurei, tanto que pausei,

e as respostas? elas brincam de se esconder!

na força não ligo para o enfado

mas na fraqueza confesso estar cansado.

De que adianta ter o manual do mundo

e o mesmo estar criptografado?!

antigamente desejava ser heroi

sonhava que cada feito seria colossal.

estravagante é o tamanho da dor que doi,

que hoje quero mesmo é chegar no final.

[Robinson M. Badin]

Esfriou em chamas

As lágrimas de amar

Não quero ser estético nas palavras seguintes.

Desejo ser sincero, honesto a ponto de ser rejeitado.

Ouvi alguém dizer que amor é um encaixe perfeito. Olha, com todo respeito, feche os olhos e veja que encaixe perfeito não é necessariamente amor, na verdade a maioria das histórias de amor genuíno dizem justamente o contrário. O amor se apresenta custoso, difícil, como disse o sábio: “amar custa caro”. Esse tal de “encaixe perfeito” pode ser engenharia, pode ser comercial, até agradável, mas não é amor. Quem procura se encaixar provavelmente não vai encontrar amor. Pode achar algo parecido, com o mesmo cheiro, com a mesma cor, pode ser carinhoso, com movimentos de trajetórias semelhantes, mas não é amor.

Variavelmente pode ser quente, pode durar a vida toda, pode te fazer feliz, pode fazer juras de amor, pode colocar o pão na mesa todos os dias, mas não é amor. Aproveito para vos lembrar que a morte já nos fez feliz, na ocasião gritamos satisfeitos: soltem Barrabás! isso não é amor.

Dizem que amor te aceita como é. Se ele fosse assim, seria desonesto, mórbido, criminoso. Pense bem, nem nós mesmos nos aceitamos como somos, corremos incessantemente em direção ao vir a ser, rumo a melhor versão de nós mesmos. Todos os dias mudamos o nosso cheiro, nosso cabelo, nosso vocabulário e assim por diante. O filósofo já disse que era impossível um mesmo homem cruzar um mesmo rio duas vezes.  E por definição o amor é a união de duas partes, ao se unirem essas duas partes já não são partes, mas o todo que deveriam ser, formou-se outra substância, outra composição. Amar é um convite para se perder no outro.

Longe de mim impor as curvas da aparência do amor, não ousaria limitá-lo à incapacidade da minha percepção,  mas sei muito bem o timbre da sua voz. A madeira foi manchada de sangue, como ovelha muda ouviu-se o grito que dividiu a história, aquele que era esperado foi esquecido, o rei foi descoroado, os espinhos tomaram lugar do ouro, o amor silenciado.

Como numa canção cabem as pausas, no amor cabem desencontros, dores e inclusive tristeza. O amor não foi feito pra nos fazer feliz o tempo todo. Mas mesmo em meio a tristeza continuar sendo o que é, ergo minha voz e serro os punhos dizendo: amor foi feito para ser amor, e isso basta. No final das contas, ao contrário do que se pensa por aí, amor não se usa, amor é. Ele serve para ser, e ser o que é em si mesmo. E tenho por certo que a busca magna do amor é estar perto. Mesmo que frio, áspero ou até mesmo agridoce.

Parafraseando aquele que realmente sabe o que é amor: em última instância restam três coisas e a maior delas é o amor.

Ser feliz…

Isso não é amor!

É ser feliz!

Mas não me entendam errado, não acho que ser feliz seja ruim, ao contrário, acho bom, até queria muito ser feliz. O que estou dizendo é que buscar amor para ser feliz é extremamente deselegante, quase um insulto, pois o amor não é totalmente alegria, ele é tudo o que é, inclusive triste, inclusive saudade, inclusive lágrimas.

Usar o amor para ser feliz é o mesmo que plantar uma árvore por um único fruto e depois descartá-la. O mesmo que desejar as rosas sem espinhos, já não é rosa! Os pássaros sem suas asas, o brilho do sol sem seu calor.

Talvez surja a indagação: você diz o que diz porque não é feliz e assim desdenha o que não tem. Sinceramente estou em pedaços, em frações de mim mesmo, o que faço na verdade faço , e agora peço permissão ao saudoso poeta, porque um terço de mim é amor e os outros dois terços também.

Quando o mundo gira ao contrário, as pétalas trocam de lugar com as raízes, e dizem que ele é um louco, lunático, mais um chato que não aprendeu a amar, eu lembro de Saramago: “O caos é o padrão a ser descoberto”.

Só sei que amar é para os fortes, os fracos procuram eudaimonia acima de tudo.

Morra de amor ou viva o desastre de ser apenas feliz.

(Robinson M. Badin)

As lágrimas de amar