Não é pra entender

O sábio disse que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço

Então percebi que pra encontrar o outro é preciso se desencontrar

Que pra receber a peça faltante é necessário perder a si mesmo

O outro só é ouvido quando silencio

E é nesse instante, único, improvável, que se compõe aquela canção feita de dois

Onde já não importa mais quanto espaço tem, porque viraram um só.

Não é pra entender

O desencontro de falar

A ambivalência do falar é angustiante, agridoce, atenuante.

O que falo, ouço antes mesmo de dizer

E isso que digo não ouvem mesmo depois de dito

As vezes falo para ser silenciado, senlencio para ser ouvido.

Se grito já deixei de falar, antes toco com as mãos atadas.

Desejo que minha voz não seja deformada nos ouvidos

Pois somos todos inversamente sinestésicos, o ouvir que deveria ser passivo, rude, se faz imperativo.

E aquela canção simples e original é desfigurada deixando de ser quem é.

(Robinson Murilo Badin)

 

O desencontro de falar